Quarta, 23 de Outubro de 2019.
[02/2010] Montadoras tentam excluir carro e peças da lista de retaliações
Representantes das montadoras, liderados pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), fizeram ontem, em Brasília, uma peregrinação pelo gabinete de alguns dos sete ministros com direito a voto na Câmara de Comércio Exterior (Camex). O objetivo é convencê-los a excluir carros e autopeças da lista de retaliações de produtos importados dos Estados Unidos. A relação será divulgada nos próximos dias e os itens selecionados serão sobretaxados.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) concedeu ao Brasil, numa decisão inédita, o direito de indicar produtos norte-americanos passíveis de retaliação por considerar que o país subsidiou "abusivamente" seus produtores de algodão.

Segundo a Anfavea, a inclusão de veículos traria riscos ao comércio bilateral, principalmente num momento em que as montadoras instaladas no País anunciam grandes investimentos. Alguns dirigentes do setor defendem que a retaliação deveria atingir apenas produtos relacionados ao universo que gerou a disputa, no caso o algodão.

O presidente da General Motors do Brasil, Jaime Ardila, disse que a medida pode atrapalhar os planos da companhia de importar, pela primeira vez, carros da marca produzidos nos EUA. Um deles é o Camaro, cupê que custa mais de R$ 100 mil, e o outro é o sedã Malibu, ambos previstos para este ano.

Ardila informou que seus pares nos EUA também estão envolvidos na tentativa de uma solução entre os dois governos que evite a retaliação.

Além de encarecer o produto vendido localmente - já taxado em 35% de alíquota de importação -, as montadoras estão preocupadas com a possibilidade de os EUA usarem o episódio para impor restrições aos carros brasileiros em futuros projetos de exportação, já que há expectativas de que o Brasil possa fornecer carros compactos para os americanos.

Nos bastidores, o governo até comemora a movimentação das montadoras, pois, de uma forma ou de outra, pode contribuir para que o País chegue a um acordo com os EUA sem necessidade de adotar a lista de retaliação. O Brasil não esconde que prefere negociar, mas, segundo o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, o País "não pode se curvar". Assim, a avaliação é que essa movimentação das fabricantes possa influenciar o Congresso americano a optar pelo consenso.

Sem sinalização por parte dos EUA, porém, o governo continua a trabalhar na lista e na próxima segunda-feira deve finalizar a escolha dos itens a serem retaliados. Numa lista preliminar a que o Estado teve acesso estão, entre outros, batata, óleo, gomas de mascar, cremes de beleza, juntas, freezers, lentes de contato e veículos com características específicas.

Um dos ministros visitados ontem foi o da Agricultura, Reinhold Stephanes. O grupo da Anfavea saiu do encontro sem falar com a imprensa. Segundo Stephanes, o valor das peças automotivas importadas dos EUA pelo Brasil é insignificante, mas ele considerou "legítima" a reivindicação do setor.

O ministro ressaltou "ser óbvio" o desejo de ter os produtos agrícolas na lista da Camex. "Gostaríamos que os produtos agrícolas fossem contemplados direta ou indiretamente. É evidente que o Ministério tem interesse".

Caso os EUA sinalizem com um acordo, Stephanes defende o desenvolvimento de pesquisas, principalmente em relação a doenças que atacam o algodão.

Fonte: Estadão...
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